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  Vovó Benta
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Breve História de Vovó Benta

 

 

Negra esbelta, de sorriso sorrateiro e conquistador, de requebrado insinuante, andava pelo casarão deixando no ar o cheiro do manjericão. Cantarolando, sempre faceira atiçava o desejo, nos negros e também nos brancos. Não passou despercebida do olhar do patrão, sinhozinho cujos dotes de beleza também assanhavam aquela negrinha. E assim, depois de uma primeira vez, foi inevitável que todas as noites ele a procurasse na senzala. Não era só um desejo, mas além do corpo que ardia ao vê-la, seu coração estava emaranhado num sentimento ao qual ele negava.

Foram anos de encontros furtivos, aos quais a sinhazinha fingia não ver. E muitos abortos, num dos quais a negrinha desencarnou.

Haveria de renascer em muito pouco tempo no mesmo lugar. Negrinha doente, que sobreviveu à morte da mãe no parto. Muito cedo aprendeu a benzer e ali estava uma negra curandeira. Parteira requisitada, não tinha hora para atender, até o dia em que, para salvar uma escrava das mãos do feitor, levou uma paulada nas costas e aleijou. Andou o resto de sua vida agachada e com fortes dores, mas nem por isso deixava de salvar vidas. Desencarnou cega e arqueada, porém feliz.

Mas havia muito a ressarcir na contabilidade do céu. Por isso, juntou-se às bandas de Aruanda e como preta velha desce à crosta para ajudar a curar e aconselhar. Precisou de um aparelho cujo comprometimento fosse adequado às suas energias, para que juntas possam aprender que é curando as feridas alheias, que as nossas cicatrizam.

De galho verde na mão e muito amor no coração, Vó Benta visita seu aparelhinho, baixando-lhe as costas e transferindo um pouco da dor que sentiu na carne para que este saiba que a humildade se faz necessária. Seu alvo avental, ao final do trabalho está sempre cheio de nós, que ela faz, para desfazer aqueles que os filhos de fé trazem até ali. No final da noite, junta-se aos irmãos e volta para Aruanda, até que a próxima lua a traga novamente cantando:

 

 Vem chegando Vovó Benta**

Benzedeira de Aruanda

Com seu galhinho de Arruda

Vem benzer filho de Umbanda....

 

* Leni Winck Saviscki, autora dos causos que compõem este capítulo, médium que manifesta o espírito que se apresenta como Vovó Benta – Benfeitora Espiritual** que atua na linha dos Pretos  Velhos

Era "gira de preto velho" no terreiro.

 

 

 

 

Firma o ponto minha gente

Preto Velho vai chegar

Ele vem de Aruanda

Ele vem prá trabalhar...

 

 

 

Era dia de "gira de preto velho" naquele terreiro. Enquanto os consulentes chegavam ansiosos e esperançosos em levar de volta a "solução" daqueles problemas que atrapalhavam suas vidas, na frente do congá os médiuns vestidos de branco e de pés descalsos concentravam, ligando-se aos seus protetores e guias.

O ambiente denotava simplicidade e era mobiliado apenas por algumas cadeiras para acomodar os consulentes, poucas banquetas para os médiuns que serveriam de "aparelhos" às entidades espirituais e o congá onde um vaso de flores, outro de ervas e os elementos ar, fogo, água e terra se faziam presentes. Acima, uma imagem de Jesus resplandescente de luz.

Iniciando-se a sessão através de pontos cantados e orações, após uma leitura espiritualista elucidativa, iniciavam-se as incorporações de maneira moderada. Do lado astral, as falanges de trabalhadores já haviam chegado muito tempo antes dos médiuns e ali já haviam preparado o ambiente fluidicamente. Uma varreduda energética havia sido feito pelos elementais onde primeiramente atuaram as salamandras e após as sereias e ondinas, fazendo com que toda a matéria astralina densa que ali se encontrava, fosse transmutada permitindo a chegada dos espíritos trabalhadores.

Na porta do ambiente, junto à firmação de ponto riscado e da presença do elemento fogo, postava-se o guardião da Casa, Exu Gira Mundo, impondo respeito e segurança. Num raio de 360º ao redor da construção, uma guarnição dos caboclos na egrégora de Ogum formavam verdadeira muralha armada, impedindo a invasão de seres indesejáveis ao bom andamento do trabalho da noite. A construção toda estava no interior de grande pirâmide iluminada na cor violeta, com grande e grossa placa de aço imantado na parte inferior impedindo que o excesso de energia telúrica desequilibrasse a polaridade positiva que era captada pelos sete anéis giratórios que ladeavam a pirâmide, representando as Sete Linhas de Umbanda. Cada um desses anéis destacam-se na cor fluídica de seu Orixá e emitiam um harmonioso som diferenciado.

Cada um dos consulentes que adentrava ao ambiente passava agora primeiro pela defumação que queimava junto à porta, em cumbuca de barro, exalando o cheiro das ervas perfumadas sendo incineradas pelo carvão vegetal. Equipes de limpeza se movimentavam no lado espiritual, recolhendo as larvas astrais e outras espécies de energias deletéreas que ali eram desagregadas dos corpos dos consulentes, as quais não eram totalmente absorvidas pelo carvão ou transmutadas pelo elemento fogo.

Em alvíssimas vestes, os amados Pais e Mães, na sua roupagem fluídica de Pretos velhos, trazendo a alegria estampada em sua energia, tomavam conta de seus "aparelhos" médiuns, atuando no chácra básico dos mesmos, obrigando-os a dobrar as suas costas à semelhança de velhos arqueados, incentivando-os ao trabalho fraterno.

E assim, de consulente em consulente, de caso em caso, com a paciência e sabedoria que lhes é peculiar, entre uma baforada e outra de palheiro ou de alguma espanada com o galho de ervas na aura daqueles filhos, os bondosos espíritos cumpriam sua missão. Eram conselhos, corrigendas, desmanche de magia negra, de elementares artificias negativos, limpeza e equilibrio dos corpos sutis, retirada de aparelhos parasitas e às vezes, alguns puxões de orelha necessários, em forma de alerta. Tudo de acordo com o merecimento do consulente, pois cada um trazia consigo a mostragem de sua "ficha cármica" onde estavam impressos o que a Lei permitia ser mudado, bem como o que ainda era necessário que com eles permanecesse.

Vó Benta, espírito portador de grande sabedoria e humildade, apresentando-se naquele local com o corpo astral de negra velha de pequena estatura, com roupas simples e alvas, cuja saia comprida e larga era coberta por um avental onde um bolso era recheado de ervas e patuás, tinha uma maneira simplista e diplomática de fazer com que os filhos entendessem que eles próprios eram seus médicos curadores:

-Minha mãe, acho que estou sendo vítima de "trabalho feito" pela minha ex mulher...

Sorrindo e com linguagem peculiar, segurava com firmeza as mãos do moço passando-lhe com isso confiança e com a voz recheada de afeto respondia:

-Negra velha vai explicar para que o filho entenda: - quando sua casa está totalmente fechada, fica escura e nada pode entrar, às vezes nem a poeira. Não é isso? Quando o filho abre as janelas e portas, a luz do sol entra invadindo todos os cantos, mas podem entrar também as moscas, baratas, formigas e até os ladrões, não é? Para a sujeira e os bichos, o filho pode usar a vassoura, para os ladrões a lei, a segurança. E para a luz do sol? Ah, essa filho, fica ali iluminando até que o filho feche toda a casa outra vez. Assim também é a nossa casa interna; quando nos fechamos para a vida, para o trabalho, ficamos no escuro e ao nos abrirmos , deixamos a luz entrar mas ficamos sujeitos a todas as outras energias que pululam ao nosso redor. Mas como acontece na casa material, onde não houverem os atrativos da sujeira e do lixo, os insetos não se aproximam. Se estivermos equilibrados, sem raiva, mágoa, ciúmes, vícios e todos esses lixos que os filhos buscam na matéria, nada nem ninguém consegue afetar nossa energia, nossa vida. Só o sol permanece no coração de quem procura manter-se limpo.

Negra velha sabe que esse mundão está de cabeça para baixo. No lado material os filhos andam desarvorados pela dificuldade de sustento de suas famílias, quando não, em busca de supérfluos. Mas mesmo assim, é preciso lembrar aos filhos, que embora estejam na matéria e sujeitos à ela, a vida real está no espírito imortal. É preciso dar mais atenção, senão prioridade, à essência em detrimento do restante, para que possa haver o equilíbrio dos elementos inerentes à vida, na sua totalidade.

O mal que é enviado aos filhos, só vai instalar-se se encontrar no endereço vibratório, ambiente adequado. Sem contar que, o medo é porta aberta e atrativo para a entrada do desequilíbrio. O medo é sentimento muito usado pelas energias da esquerda, uma vez que fragiliza o corpo emocional facilitando sua atuação mórbida. Por outro lado, negra velha pergunta para o filho: - se a desordem não houvesse se instalado, por acaso o filho estaria aqui, sentado no chão, em frente à preta velha, buscando humildemente ajuda espiritual? Nem sempre o que nos parece mal, é tão prejudicial assim. Pode ser o remédio adequado para o momento, ou talvez a estremecida necessária no corpo astral dos filhos, para que a ordem possa reinstalar-se.

As trevas, meu filho, estão vinte e quatro horas de plantão. E os filhos, acaso estão? Não adianta orar e não vigiar, pois o pensamento é energia e com ele nos adequamos ao campo energético que quisermos.

Antes da hora grande as falanges da egrégora dos Pretos Velhos, despediram-se de seus aparelhos, alguns precisando largar e desfazer a vestimenta astral usada para que pudessem chegar até os aparelhos mediúnicos e voltavam agora para as bandas de Aruanda, onde continuariam suas atividades no mundo astral. Pois como diz a Vó Benta, "se pensam que morrer é dormir e descansar, os filhos estão muito enganados...desse lado tem muito trabalho e como nem o Pai está imóvel, quem somos nós cuja ficha cármica demonstra um vasto débito, para nos aposentarmos?".

Agora as velas apagam-se, os elementos voltam a integrar a natureza, os elementais após limparem o ambiente retornam aos seus devidos reinos, os elementares foram desagregados pela força e sabedoria dos pretos velhos e os médiuns voltam aos seus lares com a sensação de paz que só é sentida por aqueles que cumprem com seus deveres.

  

 

Preto velho já foi,

Já foi prá Aruanda,

A benção meu Pai

Saravá prá sua banda... 

O milagre da mediunidade

 

 Cansada de tanta dor, aquela jovem senhora que mais denotava ser uma velha  pela aparência  do corpo arqueado, resolveu que buscaria dali em diante,  não mais o auxílio da medicina, mas o "milagre" dos céus. Assim, descendo  de seu pedestal de "madame" resolveu começar subindo a escadaria da Santa,  durante a Romaria. Lá rezou a sua maneira, acendeu velas e pediu cura.

 Ensinaram-lhe que precisava fazer novena e assim o fez. Nenhum sinal, nada  do milagre acontecer. As dores lancinantes em sua coluna após a subida da  escadaria e a falta de resultado após todo  sacrifício já a estavam  desanimando quando recebeu em suas mãos um panfleto. Ali estavam promessas  de cura, de verdadeiros milagres operados pela força do Espírito Santo e  foi para lá que ela dirigiu-se. No primeiro dia era preciso expulsar o  demônio e só depois de "colaborar" com o templo e iniciar uma corrente de  oração é que receberia a graça. Naquele lugar ela deixou uma boa quantia  do dinheiro que já escasseava devido a tantos gastos com a saúde e no  final de meses, nenhum resultado. Aborrecida já pensava no suicídio,  quando uma amiga, das poucas que ainda lhe restavam, falou de uma sortista  afamada que além de ver o futuro, por bem pouco dinheiro faria algumas  xaropadas que, com certeza lhe curariam. E assim foi que gastou mais do  que o prometido e tudo o que conseguiu foi um desarranjo intestinal.

 A dor continuava. A fraqueza agora tomava conta daquele corpo e sua mente  já estava com dificuldade de raciocínio. Das Dores, que era sua confiável  e amorosa cozinheira de longos anos, encolhida em sua humildade, mesmo nada falando para sua patroa, fazia rezas e pedidos por sua saúde. Sabendo  da aversão que a madame tinha pelos cultos afros, nunca ousou lhe contar  que freqüentava um terreiro de Umbanda na periferia.

 Naquela manhã, a jovem senhora após uma noite de insônia e muita dor,  repensando em como sua vida estava sendo roubada dia após dia, desejou não  mais levantar da cama. Desde que as dores se instalaram em sua coluna, só  somara perdas, uma pós a outra. Primeiro foi o marido que arranjou outra  mulher, diante da limitação da esposa em acompanhá-lo na ativa vida  social;  depois a filha que se casou e mudou de país; após, os amigos  foram aos poucos afastando-se e agora o dinheiro escasseava.

 Das Dores, vendo que a patroa desistia de lutar, solicitou à sua

protetora, preta velha a qual chamava de Maria Redonda, que lhe intuísse  de como agir para ajudar aquele espírito enfermo. Nessa noite, Das Dores  foi transportada em corpo astral para a colônia espiritual chamada Aruanda  e de lá trouxe os ensinamentos que precisava para socorrer a madame.

 Haveria de levantar a patroa daquele leito e mesmo a contragosto dela,

dar-lhe um banho quente, vestir roupas claras e levá-la para o terreiro de

Umbanda naquela noite em que se dava uma gira de preto velho. Inventando  uma desculpa qualquer, a bondosa negra obedeceu à sua mentora e chamando  um táxi, transportou-a até o local. Quando chegaram, a sessão estava sendo  aberta e mesmo confiando na bondosa empregada, assustou-se vendo que  estava num "Centro de Macumba", denominação que usava para esses locais.

 Escutando lá de fora a batida dos tambores e o cantarolar efusivo da

corrente mediúnica, seu coração disparou, suas mãos suaram, as pernas

tremeram e em sua mente fervilhavam imagens que por mais que forçasse, não conseguia apagar. Afloravam ressonâncias de um passado onde usou a magia  de maneira errada como também de quando se viu vítima da Inquisição. Ora  as imagens que tumultuavam sua mente eram de uma fogueira enorme onde via  seu corpo queimando; ora eram cenas de matança de aves cujo sangue lhe  banhavam a fronte. Dando um grito de horror, desmaiou.

 Assim, foi transportada para dentro do templo por dois cambonos e colocada  aos pés do congá. Rapidamente sob as ordens do Guia Chefe que já estava  atuando em seu médium, formou-se uma corrente de médiuns aos seu redor que  através da puxada de pontos cantados, incorporavam seus guias e  protetores. A vibratória de Exu se fez necessária para contenção das  forças que teimavam em comandar aquele espírito que ocupava o corpo  inerte. Dementados pelo ódio, nem perceberam que a luz os havia atraído e  assim se tornaram iscas para que fosse localizado no plano astral, o chefe  mago negro que comandava a operação.

 Além de todos os socorros efetuados a nível astral, o trabalhadores

espirituais ali presentes, através dos médiuns que cediam seus aparelhos,

limpavam e curavam os corpos imateriais da jovem senhora que agora

acordava sob o amparo da bondosa Das Dores. Sem tempo de tomar qualquer  atitude, foi levada por ela a uma sala interna do tempo, onde deitada em  maca coberta por alvos lençóis, ficaria até se restabelecer do desmaio.

 Enquanto isso, na frente do congá eram puxados pontos cantados na linha de  Yorimá para que a sessão que seria destinada aos pretos velhos pudesse ter  início. Entre essências e ervas e sob a égide do astral superior, os  bondosos e sábios espíritos baixavam suas vibrações para chegar até os  médiuns designados para o trabalho da noite. Um a um, sentadinhos em seus  tocos, cachimbando e batendo o pé atendiam amorosamente os consulentes que  se enfileiravam em busca de alento e conforto.

 Já no final da sessão, o guia chefe ordenou que fosse trazido a filha

adoentada para que Maria Redonda a atendesse. Um tanto assustada ainda,  mas sentindo imensa paz e quase sem dor nenhuma, a madame se deixou levar  embalada pelos bons fluidos que inundavam aquele ambiente tão simples mas  onde podia sentir-se tão protegida.

 Sentada em frente a sua amada cozinheira, estranhou vendo-a vestida em  traje branco, fumando cachimbo e falando daquele jeito...

 - Saravá zifia!

 Não obtendo resposta e sabendo da limitação de entendimento e da pouca fé  daquele espírito, a bondosa preta velha manifestou-se através da médium de  maneira que ela pudesse entender, ou seja, num linguajar mais adequado ao  seu nível cultural.

    A filha está assustada e a preta velha entende isso. Entende também

que estavas carregando uma mala cheia de pedras nas costas da qual não

querias te desvencilhar. Por isso, atendendo ao pedido de meu aparelho,

juntamente com teus protetores e autorizados pela Lei do Grande Pai

Oxalá, foi permitido que pudesses ter a oportunidade de largar essa mala

no rio da vida e assim, aliviar o peso de teu carma. Depois de tantos

caminhos percorridos, depois de tantos milagres negados, hoje, aqui

neste humilde tempo terás a oportunidade de dizer sim ou não, pelo seu

livre arbítrio, a continuidade deste sofrimento. Escolhestes o trabalho

mediúnico para sanar erros do passado e no entanto deixastes que o

preconceito e o materialismo vencessem a disputa entre o  bem e mal e

por isso a dor como "desperta-dor". Nada tens no corpo físico e disso já

és sabedora. O mal de que padeces se chama "mediunidade reprimida" ,

cuja demasia de ectoplasma está cristalizando já a nível dos corpos

materiais, quando não, sendo utilizado pelas trevas, por falta do bom

uso. Enquanto buscavas o milagre vindo de fora, teus amparadores nada

podiam fazer a não ser deixar que se cumprisse a Lei. E assim foi feito.

  Agora preta velha fala para a filha que só existe um caminho a ser

trilhado - o do amor. Amor que vai curar, auxiliar, amparar. Neste

templo tem um toco esperando uma preta velha que usará um corpo branco  para se manifestar.

 

 Por bom tempo, Das Dores foi a mestra daquela madame diplomada. Perguntas  e mais perguntas que eram respondidas com a simplicidade e o amor de que  são portadores os espíritos evoluídos e humildes. Hoje, enquanto a  sociedade abastada veste os corpos de ilusão da riqueza, da fama, do falso  sucesso, uma antiga dama dessa casta, dirige-se ao Templo de Umbanda para  lá prestar a caridade. Pés descalsos, sentada no toco, saudável e feliz,  leva conforto e luz a quem as trevas insiste em levar a dor. Aprendeu que  a fé às vezes precisa de um parto difícil para nascer, mas que só ela dá  sustentação real a tudo àquilo que existe em nossa vida.

 

 ( Vovó Benta )

 

"No Universo não existem fantasias nem milagres, mas tudo obedece a um  processo de ciência cósmica com leis invariáveis." Ramatis – Elucidações  do Além

 

Por que isso foi acontecer justamente comigo?

 

Era a pergunta que fazia entre lágrimas, aquela mãe desesperançada ajoelhada aos pés da médium incorporada. Os cabelos desalinhados demonstravam o seu pouco caso com o corpo físico, contrariando a mesma mulher de algum tempo atrás onde a vaidade era ponto preponderante em sua personalidade. Os anéis que enchiam seus dedos já não tinham o brilho da jóia cara, pois perderam o valor que sempre dera e eles. Estava ali, depois de ter passado por muitos lugares onde em nenhum encontrara a resposta à sua pergunta.

Ainda, a dor terrível da perda corroía-lhe o coração. Já fazia mais de dois anos que seu único filho havia desencarnado com apenas três anos de idade. Trazia com ela, uma foto do seu principezinho de olhos azuis.

Desde então, sentia como se houvessem lhe arrancado um braço deixando se esvair por ali parte de sua energia vital e todo seu prazer pela vida.

A preta velha pacientemente escutava os lamentos dolorosos daquela mãe, enquanto buscava através de seu adestrado poder mental, clarividente, realizar em outro nível fora do plano físico, a transmutação daquelas formas pensamento plasmadas e vivificadas por aquele espírito em desequilíbrio. Pela magia do amor, convocava os elementais para que com seus respectivos elementos pudessem efetuar a profilaxia necessária nas larvas astrais que se acumulavam em seus centros de força. A movimentação que se realizava a nível astral era intensa e ignorada pela mulher, que enclausurada em sua dor só queria uma resposta que viesse alentar o seu coração.

Percebendo que por ligações ancestrais, aquele ser estava sendo alvo de indução mental negativa, em total desrespeito ao seu merecimento, denotando processo obsessivo mórbido que a ligava a um bolsão de espíritos renitentes e materialistas, habitantes do umbral inferior, a bondosa e sábia preta velha convocou a presença do Exu de sua serventia que, com sua falange adentrou àquele lugar retendo-os e encaminhando-os ao aprendizado necessário num entreposto transitório do Astral, restabelecendo a justiça até as devidas deliberações pelos maiorais siderais. Ao mesmo tempo, era prestado socorro a muitos outros espíritos sofredores alienados e vencidos pela dor, que por sintonia vibratória – semelhante atrai semelhante – intensificavam, por repercussão vibratória, o estado de torpor mental da mãe revoltada com a perda do filhinho .

A catarse que se verificava com aquela mãe, agora acalmava diante da sensação de aconchego que a bondosa Preta Velha  lhe passava, e pelas palavras a ela dirigidas:

-Negra velha vai responder à sua pergunta fazendo outra:

-       você amava aquele filho que partiu?

-       Meu Deus, é claro que o amava. Ele era meu único filho!

-       Então o meu conselho é que  continue o amando.

-       Eu o amo ainda, mas a  sua presença me faz muita falta. Eu deveria ter morrido em seu lugar.

-       Negra velha pede desculpas à filha, mas vai ter que ser verdadeira dizendo que mesmo não duvidando deste amor, ele é por demais egoísta.

Ouvindo isso e sentindo-se insultada a mulher reclamou:

-Eu egoísta. Amar um filho é ser egoísta?

-Amar significa libertar. A filha não está querendo deixar que a alma deste espírito tome seu rumo. Está sofrendo porque ele se foi, mas querendo ter ido em seu lugar, esquecendo que nessa situação o sofrimento seria dele, e talvez muito maior que o seu, pois então ficaria órfão. Além do mais, filha, o que você fez até agora para preencher essa falta que diz sentir, além de chorar? Por acaso percebeu que a poucos metros de sua casa tem um "lar-abrigo" de crianças abandonadas e carentes? Já pensou em secar estas lágrimas e sorrir para elas? Sofre sem seu filho, elas sofrem por não terem uma mãe.

A mulher baixou a cabeça envergonhada por lembrar de quantas vezes pensou que Deus poderia ter levado uma daquelas crianças órfãs em vez de ter arrebatado o seu querido menino:

- A vida, minha filha, é um quebra cabeça muito bem arquitetado onde todas as peças têm um lugar certo. Ache o seu, pois o filho que há tempo partiu, neste momento está chegando onde devia.

A Preta Velha nada mais falou, apenas a abençoou, despedindo-se. Era preciso à atendida interiorizar tudo que foi dito, e agora, com mais lucidez, pois já havia ganhado ali naquela humilde tenda umbandista, toda ajuda que permitia seu merecimento, haveria de compreender melhor o seu sofrimento ampliando o discernimento frente a constatação que a morte não existe .

O cambono não compreendeu porque a Preta Velha agora sorria e lhe oferecia um pirulito, pedindo que a corrente puxasse um ponto cantado da vibratória de Yori. O que ele não via era o cenário que agora se armava a nível astral. Espíritos com muita luz sob a forma de alegres crianças invadiam aquela  tenda para levarem junto o menino que havia morrido, mas não “desencarnado”, eis que a sua atual mãe carnal o prendia na crosta e junto a si através de seu desespero irracional. Enfraquecido e frágil, ele agora encontraria um lar, muitas mães e amigos de eras remotas, de várias encarnações passadas, que o ajudariam a continuar sua caminhada evolutiva como espírito imortal.

Na próxima "lua" voltaria uma mulher com uma criança negra e raquítica pela mão para que a Preta Velha o curasse de uma bronquite crônica. Entre todas as crianças do "lar-abrigo", aquela havia conquistado seu coração.

Preta Velha sorriu... A pergunta estava respondida.

Vovó Benta

 

A voz do silêncio

 

O atendimento da noite agora encerrava naquela terreiro de Umbanda. Alguns dos pretos velhos que haviam trabalhado, desligavam-se de  seus aparelhos, não sem antes equilibrá-los  com energias edificantes e benfazejas.

Um dos médiuns, após, praticamente “despachar”  seu protetor, apressou-se em ajoelhar-se aos pés da preta velha  que ainda permanecia incorporada, para solicitar aconselhamento.

O  bondoso espírito acolheu  amorosamente suas lamentações como o fez com todos os outros que haviam passado por ela naquela noite. Ouviu a tudo fumegando seu cachimbo, porém nada falou. Saravou aquele filho, agradecendo-o pela caridade que havia prestado e assim se despediu, largando  seu aparelho.

O médium por sua vez, desajeitadamente  se retirou sem conseguir entender o silêncio  da Preta Velha. Um misto de rejeição e indignação passou  a povoar seus sentimentos.- “Então é assim!  Eu fico fazendo caridade por horas a fio e quando solicito ajuda o que recebo?”

Enquanto a corrente mediúnica realizava as preces de encerramento da sessão,  ele sentiu uma inexplicável sonolência que o obrigou a dirigir-se diretamente para casa, ignorando o programa prévio de sair com os amigos para mais uma noitada de lazer em bares da cidade.

Mal adormeceu,  em corpo astral, através do desdobramento, percebeu estar ajoelhado sobre folhas verdes e cheirosas num ambiente simples, cujas paredes eram feitas de bambu, o teto de folhas de coqueiro e o chão de terra batida. Algumas tochas iluminavam o local  e havia uma cantiga no ar que ele bem conhecia. Sentindo a presença de alguém, virou-se e o viu sentado em seu tosco banco com aquele sorriso matreiro e  cachimbo no canto da boca. Sua roupa, bem como seus cabelos brancos contrastavam com a pele negra. Os pés descalços e calejados. No pescoço um rosário cujas contas eram pura luz. Sim, era ele, Pai Benedito, seu protetor.

-       Saravá zin fio!

-       Saravá meu Pai!

-       Pai Benedito chamou o filho até sua tenda para poder  explicar tudo aquilo que você não conseguiu entender com a orientação da mana lá no terreiro da terra.

-       Meu Pai, ela nada falou...

-       E suncê se magoou, não foi?

-       -É... não compreendi...

-       Por isso Pai Benedito o trouxe até aqui e vai explicar. Os filhos da terra ainda não conseguem compreender a mensagem do silêncio devido as suas mentes aceleradas pelo imediatismo, pela falta de concentração e pelo vício de “receitas prontas”. A mana que nada disse ao filho, agiu assim justamente para incentivar a sua busca das respostas. Queria que o filho, instigado pela falta do aconselhamento a que vinha se acostumando, pudesse parar e pensar. Pensar em todos os conselhos que seu protetor, através de seu aparelho, havia passado para as pessoas que atendera lá no terreiro há momentos atrás.

        O silêncio da preta velha, quis dizer ao filho que o primeiro e maior  beneficiado da abençoada tarefa mediúnica  é o próprio mediador. A sua característica de médium consciente permite que receba e transmita os nossos pensamentos e os bons fluídos dos quais se torna canal. Para que o intercâmbio “médium-espírito” aconteça, pela bondade divina , o corpo astral  do mediador é previamente preparado antes de reencarnar através da “sensibilização fluido- mediúnico” de seus centros de forças para que assim se dê a afinização com seus protetores

          Durante toda a vida encarnada, é ainda alertado e amparado para que possa exercer o mandato dentro do programado. No entanto, existe um carma envolvendo tudo isso e o fato dos filhos prestarem a caridade não os isenta dos entrechoques a que estão sujeitos na matéria, que nada mais são do que ensinamentos necessários do certo e do errado. Respeitando as escolhas feitas, esses protetores tantas vezes, mesmo e apesar de todo esforço, perdem seus pupilos para os descaminhos da vida, e então resta-lhes aguardar que o relógio do tempo os traga de volta pela mão da dor.

Pai Benedito não se entristece se o filho por vezes o dispensa ou não entende suas mensagens. Nem mesmo quando o filho desfaz as energias recebidas após o trabalho de caridade através da busca de prazeres ilusórios e momentâneos. Apenas ajoelha diante do congá, que no plano astral fica sempre iluminado pelas velas da caridade prestada nas poucas horas em que a corrente de médiuns se reúne na terra, e implora ao Pai Oxalá a sua compreensão para todos os espíritos que ainda teimam em permanecer colados às suas mazelas no plano terreno.

Por isso filho, estando aqui em frente a este espírito que tanto o ama e cuja ligação perde-se no tempo, peço que desabafe suas dores, que  tire as dúvidas que angustiam seu coração.

Agora o silêncio era todo seu. Apenas as grossas lágrimas que desciam de sua face falavam de sua pouca fé, de seu descrédito até então, pela própria mediunidade. De seus momentos de incertezas quanto a estar servindo realmente de canal para Pai Benedito, de seus medos em relação ao animismo e da confusão que fazia dele com a  mistificação. Mas principalmente de sua vontade de largar tudo pelos prazeres do mundo, afinal era muito jovem ainda para levar uma vida regrada em função da mediunidade.

- Pai Benedito compreende a angústia do filho, mas pede que revise os tantos avisos que recebeu em seus sonhos, nas palestras instrutivas que ouviu lá no terreiro, nos livros que chegaram até suas mãos e nas tantas vezes que a Preta Velha o instruiu, o aconselhou. Onde estão estas informações? Para quem eram dirigidas nossas palavras nos atendimentos, senão para você que as  ouvia antes de repassá-las? Nada é proibido aos filhos no estágio da matéria, mas em tudo deverá existir o equilíbrio.

O silêncio da Preta Velha havia sido traduzido e agora ele conseguia compreender que fora o melhor, dos tantos conselhos que ouvira dela. Fechando seus olhos, a ela agradeceu mentalmente e quando os abriu, além do cheiro de incenso e da claridade que se instalara naquele ambiente, percebeu que tudo modificara. A humilde tenda agora era um templo iluminado por vitrais coloridos que formavam filetes de luz que se entrecruzavam num quadro de beleza estonteante. No chão, ao centro, em esplendoroso piso vitrificado havia o desenho de uma mandala, que de seu centro irradiava luz dourada. Já não estava mais diante daquele  Pai Velho em humildes trajes, pois ele havia se transfigurado num ser de características orientais, de olhar penetrante.

Nada pode pronunciar, sua voz embargou. Havia que se fazer o silêncio para que só ele traduzisse a mensagem  agora recebida.

Naquela manhã acordou muito cedo, tendo plena lembrança de seu “sonho”. No ar, ainda o cheiro do incenso. Não fosse a exigência da vida  física, ficaria o dia todo calado,  saudando o silêncio da Preta Velha.

“Que nos ouça, quem tem ouvidos de ouvir”. Saravá aos filhos da Terra!

 

                Vovó Benta

 

 

 

OS LOBOS ESTÃO SOLTOS

 

Camboninho, senta aqui nos pés da preta velha. Vem emprestar seus ouvidos, pois este espírito que habita o mundo dos mortos, está precisando falar o que vem sentindo em seu velho e insistente coração.

- Salve minha boa mãe preta. Aqui estou para aprender com vossa sabedoria.

-  Meu menino...preta velha tem feito sua gira pelos terreiros dessas terras do Cruzeiro e entre risos de alegria por ver que a caridade se expande, contrariando as dificuldades deste mundo materialista, algumas lágrimas de dor tem caído deste rosto enrugado pelo tempo.

- Posso saber porque chora, minha mãe?

- Negra velha já deveria estar acostumada com as agulhadas dos espinhos e com os laçassos do chicote...e até suporta isso quando a dor vem para o próprio corpo, mas se ressente e sofre quando isso se dá no coração dos filhos de fé.

- Camboninho, tenho visto tanta discórdia tomar conta das fileiras da caridade, apagando as tochinhas da fé daqueles que não a tem bem fortalecida. A muito tempo do vosso calendário, desceu dos céus e veio habitar entre vós um grande Mestre, filho do Altíssimo e por aqui deixou muitas mensagens e dentre elas, ensinou aquilo que seus discípulos expandiram através das escrituras sagradas: - "A caridade é paciente; é doce e benfazeja; a caridade não é invejosa; não é temerária e precipitada; não se enche de orgulho; não é desdenhosa; não procura seus próprios interesses; não se melindra e não se irrita com nada; não suspeita mal, não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade; tudo suporta, tudo crê, tudo espera, tudo sofre."

E falou também que haveria um tempo em que se abririam as portas por onde seriam soltos os lobos e para tanto, as ovelhas deveriam estar atentas para que não fossem apanhadas de surpresa. E esse tempo chegou, meu menino.

Os lobos estão famintos e nem todos os cordeiros fortalecidos suficientemente para poder fugir do assalto das feras. Por todo o tempo ignoraram que era preciso mais que se dizer "filho do Pai", e sim que precisavam se fazer dignos deste Pai, honrando-o e a seus mandamentos. As leis existem para serem cumpridas e a partir do momento em que uma delas passa a não ser observada, abre-se preceito para que as outras percam seu valor.

Preciosa moeda, de valor incalculável é pois, a caridade. Mas, como toda moeda pode ser falsificada e assim o é, quando não possui o brilho do desprendimento e do amor. Ela também deve ser pautada nas leis que regem a humanidade e há que se ter discernimento para que não se joguem pérolas aos porcos.

Os famintos lobos, vorazes e vindos de um mundo sem lei, desrespeitam o livre arbítrio das ovelhas e no menor indício de desatenção, eles pulam sobre a presa e devoram seu coração. É dele que se alimentam e a partir de então, as ovelhas, quais zumbis, perambulam comandadas por falsas leis gerando falsas idéias. E aquilo que até então se fazia valer dentro do rebanho, perde o sentido e os valores reais, e o pior de tudo meu menino: - perder o coração pode ser contagioso!

Vejo com o coração doído, meu menino, esses lobos atacarem ferozmente os rebanhos do Mestre. Ovelhas escolhidas para sustentar esse final de ciclo terreno que venceram as tentações da matéria e do desregramento sexual, as duas fatais jogadas das trevas sobre os homens até então, mas que agora sucumbem por deixarem se confundir nos reais valores da caridade e da fé.

E como um vendaval, entram soprando as tochas acesas, tentando escurecer nosso mundo e apagar a luz. E ai daqueles que sucumbirem! Ai daqueles que testados até então e ainda vitoriosos, não conservarem neste último e derradeiro instante, sua luz acesa, mostrando de que lado se encontram. O joio e o trigo não mais permanecerão na mesma lavoura e a separação se faz rápida para que os novos tempos cheguem trazendo boa colheita.

As mentes desavisadas, o emocional desequilibrado e a vaidade exacerbada faz com que se lancem no lodaçal, aquelas que seriam boa semente, e lá apodreçam sem germinar. Atente meu menino, para a voz do seu coração e não ensurdeça agora. Muitos uivos se ouvirão e confundir-se-ão pelas ondas do tempo. É preciso, acima de tudo, discernimento e a certeza de que não é apenas a pele de cordeiro cobrindo o lobo, mas que dentro deste cordeiro existe a marca do Mestre. E essa marca meu filho, é demonstrada pela humildade e desprendimento em exercitar a caridade. Sem falsos falatórios que enchem a boca mas esvaziam o coração.

Caridade feita pelo arquear de suas costas, olhando o chão, mas vislumbrando nele o reflexo de um céu estrelado e que cada estrela seja representada por uma gota de seu suor nas horas de doação. Prossiga assim meu menino e não perca ao longo do caminho, essa inocência de seu olhar, que ainda faz das crianças a esperança da renovação

-Saravá meu camboninho!

-Saravá minha mãe, vossa bênção! 

Vovó Benta

 

 

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