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Breve História de Vovó
Benta
Negra esbelta, de
sorriso sorrateiro e conquistador, de requebrado insinuante, andava
pelo casarão deixando no ar o cheiro do manjericão. Cantarolando,
sempre faceira atiçava o desejo, nos negros e também nos brancos.
Não passou despercebida do olhar do patrão, sinhozinho cujos dotes
de beleza também assanhavam aquela negrinha. E assim, depois de uma
primeira vez, foi inevitável que todas as noites ele a procurasse na
senzala. Não era só um desejo, mas além do corpo que ardia ao vê-la,
seu coração estava emaranhado num sentimento ao qual ele
negava.
Foram anos de
encontros furtivos, aos quais a sinhazinha fingia não ver. E muitos
abortos, num dos quais a negrinha
desencarnou.
Haveria de renascer
em muito pouco tempo no mesmo lugar. Negrinha doente, que sobreviveu
à morte da mãe no parto. Muito cedo aprendeu a benzer e ali estava
uma negra curandeira. Parteira requisitada, não tinha hora para
atender, até o dia em que, para salvar uma escrava das mãos do
feitor, levou uma paulada nas costas e aleijou. Andou o resto de sua
vida agachada e com fortes dores, mas nem por isso deixava de salvar
vidas. Desencarnou cega e arqueada, porém
feliz.
Mas havia muito a
ressarcir na contabilidade do céu. Por isso, juntou-se às bandas de
Aruanda e como preta velha desce à crosta para ajudar a curar e
aconselhar. Precisou de um aparelho cujo comprometimento fosse
adequado às suas energias, para que juntas possam aprender que é
curando as feridas alheias, que as nossas
cicatrizam.
De galho verde na
mão e muito amor no coração, Vó Benta visita seu aparelhinho,
baixando-lhe as costas e transferindo um pouco da dor que sentiu na
carne para que este saiba que a humildade se faz necessária. Seu
alvo avental, ao final do trabalho está sempre cheio de nós, que ela
faz, para desfazer aqueles que os filhos de fé trazem até ali. No
final da noite, junta-se aos irmãos e volta para Aruanda, até que a
próxima lua a traga novamente cantando:
Vem chegando Vovó
Benta**
Benzedeira de
Aruanda
Com seu galhinho de
Arruda
Vem benzer filho de
Umbanda....
* Leni Winck Saviscki, autora dos causos que compõem
este capítulo, médium que manifesta o espírito que se apresenta como
Vovó Benta – Benfeitora Espiritual** que atua na linha dos
Pretos
Velhos
Era "gira de
preto velho" no terreiro.
Firma o ponto minha
gente
Preto Velho vai
chegar
Ele vem de
Aruanda
Ele vem prá
trabalhar...
Era dia de "gira de preto
velho" naquele terreiro. Enquanto os consulentes chegavam ansiosos e
esperançosos em levar de volta a "solução" daqueles problemas que
atrapalhavam suas vidas, na frente do congá os médiuns vestidos de
branco e de pés descalsos concentravam, ligando-se aos seus
protetores e guias.
O ambiente denotava
simplicidade e era mobiliado apenas por algumas cadeiras para
acomodar os consulentes, poucas banquetas para os médiuns que
serveriam de "aparelhos" às entidades espirituais e o congá onde um
vaso de flores, outro de ervas e os elementos ar, fogo, água e terra
se faziam presentes. Acima, uma imagem de Jesus resplandescente de
luz.
Iniciando-se a sessão
através de pontos cantados e orações, após uma leitura
espiritualista elucidativa, iniciavam-se as incorporações de maneira
moderada. Do lado astral, as falanges de trabalhadores já haviam
chegado muito tempo antes dos médiuns e ali já haviam preparado o
ambiente fluidicamente. Uma varreduda energética havia sido feito
pelos elementais onde primeiramente atuaram as salamandras e após as
sereias e ondinas, fazendo com que toda a matéria astralina densa
que ali se encontrava, fosse transmutada permitindo a chegada dos
espíritos trabalhadores.
Na porta do ambiente,
junto à firmação de ponto riscado e da presença do elemento fogo,
postava-se o guardião da Casa, Exu Gira Mundo, impondo respeito e
segurança. Num raio de 360º ao redor da construção, uma guarnição
dos caboclos na egrégora de Ogum formavam verdadeira muralha armada,
impedindo a invasão de seres indesejáveis ao bom andamento do
trabalho da noite. A construção toda estava no interior de grande
pirâmide iluminada na cor violeta, com grande e grossa placa de aço
imantado na parte inferior impedindo que o excesso de energia
telúrica desequilibrasse a polaridade positiva que era captada pelos
sete anéis giratórios que ladeavam a pirâmide, representando as Sete
Linhas de Umbanda. Cada um desses anéis destacam-se na cor fluídica
de seu Orixá e emitiam um harmonioso som
diferenciado.
Cada um dos consulentes
que adentrava ao ambiente passava agora primeiro pela defumação que
queimava junto à porta, em cumbuca de barro, exalando o cheiro das
ervas perfumadas sendo incineradas pelo carvão vegetal. Equipes de
limpeza se movimentavam no lado espiritual, recolhendo as larvas
astrais e outras espécies de energias deletéreas que ali eram
desagregadas dos corpos dos consulentes, as quais não eram
totalmente absorvidas pelo carvão ou transmutadas pelo elemento
fogo.
Em alvíssimas vestes, os
amados Pais e Mães, na sua roupagem fluídica de Pretos velhos,
trazendo a alegria estampada em sua energia, tomavam conta de seus
"aparelhos" médiuns, atuando no chácra básico dos mesmos,
obrigando-os a dobrar as suas costas à semelhança de velhos
arqueados, incentivando-os ao trabalho
fraterno.
E assim, de consulente em
consulente, de caso em caso, com a paciência e sabedoria que lhes é
peculiar, entre uma baforada e outra de palheiro ou de alguma
espanada com o galho de ervas na aura daqueles filhos, os bondosos
espíritos cumpriam sua missão. Eram conselhos, corrigendas,
desmanche de magia negra, de elementares artificias negativos,
limpeza e equilibrio dos corpos sutis, retirada de aparelhos
parasitas e às vezes, alguns puxões de orelha necessários, em forma
de alerta. Tudo de acordo com o merecimento do consulente, pois cada
um trazia consigo a mostragem de sua "ficha cármica" onde estavam
impressos o que a Lei permitia ser mudado, bem como o que ainda era
necessário que com eles permanecesse.
Vó Benta, espírito
portador de grande sabedoria e humildade, apresentando-se naquele
local com o corpo astral de negra velha de pequena estatura, com
roupas simples e alvas, cuja saia comprida e larga era coberta por
um avental onde um bolso era recheado de ervas e patuás, tinha uma
maneira simplista e diplomática de fazer com que os filhos
entendessem que eles próprios eram seus médicos
curadores:
-Minha mãe, acho que estou
sendo vítima de "trabalho feito" pela minha ex
mulher...
Sorrindo e com linguagem
peculiar, segurava com firmeza as mãos do moço passando-lhe com isso
confiança e com a voz recheada de afeto
respondia:
-Negra velha vai explicar
para que o filho entenda: - quando sua casa está totalmente fechada,
fica escura e nada pode entrar, às vezes nem a poeira. Não é isso?
Quando o filho abre as janelas e portas, a luz do sol entra
invadindo todos os cantos, mas podem entrar também as moscas,
baratas, formigas e até os ladrões, não é? Para a sujeira e os
bichos, o filho pode usar a vassoura, para os ladrões a lei, a
segurança. E para a luz do sol? Ah, essa filho, fica ali iluminando
até que o filho feche toda a casa outra vez. Assim também é a nossa
casa interna; quando nos fechamos para a vida, para o trabalho,
ficamos no escuro e ao nos abrirmos , deixamos a luz entrar mas
ficamos sujeitos a todas as outras energias que pululam ao nosso
redor. Mas como acontece na casa material, onde não houverem os
atrativos da sujeira e do lixo, os insetos não se aproximam. Se
estivermos equilibrados, sem raiva, mágoa, ciúmes, vícios e todos
esses lixos que os filhos buscam na matéria, nada nem ninguém
consegue afetar nossa energia, nossa vida. Só o sol permanece no
coração de quem procura manter-se
limpo.
Negra velha sabe que esse
mundão está de cabeça para baixo. No lado material os filhos andam
desarvorados pela dificuldade de sustento de suas famílias, quando
não, em busca de supérfluos. Mas mesmo assim, é preciso lembrar aos
filhos, que embora estejam na matéria e sujeitos à ela, a vida real
está no espírito imortal. É preciso dar mais atenção, senão
prioridade, à essência em detrimento do restante, para que possa
haver o equilíbrio dos elementos inerentes à vida, na sua
totalidade.
O mal que é enviado aos
filhos, só vai instalar-se se encontrar no endereço vibratório,
ambiente adequado. Sem contar que, o medo é porta aberta e atrativo
para a entrada do desequilíbrio. O medo é sentimento muito usado
pelas energias da esquerda, uma vez que fragiliza o corpo emocional
facilitando sua atuação mórbida. Por outro lado, negra velha
pergunta para o filho: - se a desordem não houvesse se instalado,
por acaso o filho estaria aqui, sentado no chão, em frente à preta
velha, buscando humildemente ajuda espiritual? Nem sempre o que nos
parece mal, é tão prejudicial assim. Pode ser o remédio adequado
para o momento, ou talvez a estremecida necessária no corpo astral
dos filhos, para que a ordem possa
reinstalar-se.
As trevas, meu filho,
estão vinte e quatro horas de plantão. E os filhos, acaso estão? Não
adianta orar e não vigiar, pois o pensamento é energia e com ele nos
adequamos ao campo energético que
quisermos.
Antes da hora grande as
falanges da egrégora dos Pretos Velhos, despediram-se de seus
aparelhos, alguns precisando largar e desfazer a vestimenta astral
usada para que pudessem chegar até os aparelhos mediúnicos e
voltavam agora para as bandas de Aruanda, onde continuariam suas
atividades no mundo astral. Pois como diz a Vó Benta, "se pensam que
morrer é dormir e descansar, os filhos estão muito enganados...desse
lado tem muito trabalho e como nem o Pai está imóvel, quem somos nós
cuja ficha cármica demonstra um vasto débito, para nos
aposentarmos?".
Agora as velas apagam-se,
os elementos voltam a integrar a natureza, os elementais após
limparem o ambiente retornam aos seus devidos reinos, os elementares
foram desagregados pela força e sabedoria dos pretos velhos e os
médiuns voltam aos seus lares com a sensação de paz que só é sentida
por aqueles que cumprem com seus
deveres.
Preto velho já foi,
Já foi prá Aruanda,
A benção meu
Pai
Saravá
prá sua banda...
O milagre da
mediunidade
Cansada de tanta dor, aquela jovem
senhora que mais denotava ser uma velha pela aparência do corpo arqueado, resolveu
que buscaria dali em diante,
não mais o auxílio da medicina, mas o "milagre" dos céus.
Assim, descendo de seu
pedestal de "madame" resolveu começar subindo a escadaria da
Santa, durante a
Romaria. Lá rezou a sua maneira, acendeu velas e pediu
cura.
Ensinaram-lhe que precisava
fazer novena e assim o fez. Nenhum sinal, nada do milagre acontecer. As
dores lancinantes em sua coluna após a subida da escadaria e a falta de
resultado após todo
sacrifício já a estavam
desanimando quando recebeu em suas mãos um panfleto. Ali
estavam promessas de
cura, de verdadeiros milagres operados pela força do Espírito Santo
e foi para lá que ela
dirigiu-se. No primeiro dia era preciso expulsar o demônio e só depois de
"colaborar" com o templo e iniciar uma corrente de oração é que receberia a
graça. Naquele lugar ela deixou uma boa quantia do dinheiro que já
escasseava devido a tantos gastos com a saúde e no final de meses, nenhum
resultado. Aborrecida já pensava no suicídio, quando uma amiga, das poucas
que ainda lhe restavam, falou de uma sortista afamada que além de ver o
futuro, por bem pouco dinheiro faria algumas xaropadas que, com certeza
lhe curariam. E assim foi que gastou mais do que o prometido e tudo o que
conseguiu foi um desarranjo intestinal.
A dor continuava. A fraqueza
agora tomava conta daquele corpo e sua mente já estava com dificuldade de
raciocínio. Das Dores, que era sua confiável e amorosa cozinheira de
longos anos, encolhida em sua humildade, mesmo nada falando para sua
patroa, fazia rezas e pedidos por sua saúde. Sabendo da aversão que a madame
tinha pelos cultos afros, nunca ousou lhe contar que freqüentava um terreiro
de Umbanda na periferia.
Naquela manhã, a jovem
senhora após uma noite de insônia e muita dor, repensando em como sua vida
estava sendo roubada dia após dia, desejou não mais levantar da cama. Desde
que as dores se instalaram em sua coluna, só somara perdas, uma pós a
outra. Primeiro foi o marido que arranjou outra mulher, diante da limitação
da esposa em acompanhá-lo na ativa vida social; depois a filha que se casou
e mudou de país; após, os amigos foram aos poucos
afastando-se e agora o dinheiro
escasseava.
Das Dores, vendo que a patroa
desistia de lutar, solicitou à sua
protetora, preta velha a
qual chamava de Maria Redonda, que lhe intuísse de como agir para ajudar
aquele espírito enfermo. Nessa noite, Das Dores foi transportada em corpo
astral para a colônia espiritual chamada Aruanda e de lá trouxe os
ensinamentos que precisava para socorrer a
madame.
Haveria de levantar a patroa
daquele leito e mesmo a contragosto
dela,
dar-lhe um banho quente,
vestir roupas claras e levá-la para o terreiro
de
Umbanda naquela noite em
que se dava uma gira de preto velho. Inventando uma desculpa qualquer, a
bondosa negra obedeceu à sua mentora e chamando um táxi, transportou-a até o
local. Quando chegaram, a sessão estava sendo aberta e mesmo confiando na
bondosa empregada, assustou-se vendo que estava num "Centro de
Macumba", denominação que usava para esses
locais.
Escutando lá de fora a batida
dos tambores e o cantarolar efusivo da
corrente mediúnica, seu
coração disparou, suas mãos suaram, as
pernas
tremeram e em sua mente
fervilhavam imagens que por mais que forçasse, não conseguia apagar.
Afloravam ressonâncias de um passado onde usou a magia de maneira errada como
também de quando se viu vítima da Inquisição. Ora as imagens que tumultuavam
sua mente eram de uma fogueira enorme onde via seu corpo queimando; ora
eram cenas de matança de aves cujo sangue lhe banhavam a fronte. Dando um
grito de horror, desmaiou.
Assim, foi transportada para
dentro do templo por dois cambonos e colocada aos pés do congá.
Rapidamente sob as ordens do Guia Chefe que já estava atuando em seu médium,
formou-se uma corrente de médiuns aos seu redor que através da puxada de pontos
cantados, incorporavam seus guias e protetores. A vibratória de
Exu se fez necessária para contenção das forças que teimavam em
comandar aquele espírito que ocupava o corpo inerte. Dementados pelo
ódio, nem perceberam que a luz os havia atraído e assim se tornaram iscas para
que fosse localizado no plano astral, o chefe mago negro que comandava a
operação.
Além de todos os socorros
efetuados a nível astral, o
trabalhadores
espirituais ali presentes,
através dos médiuns que cediam seus
aparelhos,
limpavam e curavam os
corpos imateriais da jovem senhora que
agora
acordava sob o amparo da
bondosa Das Dores. Sem tempo de tomar qualquer atitude, foi levada por ela
a uma sala interna do tempo, onde deitada em maca coberta por alvos
lençóis, ficaria até se restabelecer do
desmaio.
Enquanto isso, na frente do
congá eram puxados pontos cantados na linha de Yorimá para que a sessão que
seria destinada aos pretos velhos pudesse ter início. Entre essências e
ervas e sob a égide do astral superior, os bondosos e sábios espíritos
baixavam suas vibrações para chegar até os médiuns designados para o
trabalho da noite. Um a um, sentadinhos em seus tocos, cachimbando e batendo
o pé atendiam amorosamente os consulentes que se enfileiravam em busca de
alento e conforto.
Já no final da sessão, o guia
chefe ordenou que fosse trazido a filha
adoentada para que Maria
Redonda a atendesse. Um tanto assustada ainda, mas sentindo imensa paz e
quase sem dor nenhuma, a madame se deixou levar embalada pelos bons fluidos
que inundavam aquele ambiente tão simples mas onde podia sentir-se tão
protegida.
Sentada em frente a sua amada
cozinheira, estranhou vendo-a vestida em traje branco, fumando
cachimbo e falando daquele jeito...
- Saravá
zifia!
Não obtendo resposta e
sabendo da limitação de entendimento e da pouca fé daquele espírito, a bondosa
preta velha manifestou-se através da médium de maneira que ela pudesse
entender, ou seja, num linguajar mais adequado ao seu nível
cultural.
A filha está
assustada e a preta velha entende isso. Entende
também
que estavas carregando uma
mala cheia de pedras nas costas da qual
não
querias te desvencilhar.
Por isso, atendendo ao pedido de meu
aparelho,
juntamente com teus
protetores e autorizados pela Lei do Grande
Pai
Oxalá, foi permitido que
pudesses ter a oportunidade de largar essa
mala
no rio da vida e assim,
aliviar o peso de teu carma. Depois de
tantos
caminhos percorridos,
depois de tantos milagres negados, hoje,
aqui
neste humilde tempo terás
a oportunidade de dizer sim ou não, pelo
seu
livre arbítrio, a
continuidade deste sofrimento. Escolhestes o
trabalho
mediúnico para sanar erros
do passado e no entanto deixastes que o
preconceito e o
materialismo vencessem a disputa entre o bem e mal
e
por isso a dor como
"desperta-dor". Nada tens no corpo físico e disso
já
és sabedora. O mal de que
padeces se chama "mediunidade reprimida"
,
cuja demasia de ectoplasma
está cristalizando já a nível dos
corpos
materiais, quando não,
sendo utilizado pelas trevas, por falta do
bom
uso. Enquanto buscavas o
milagre vindo de fora, teus amparadores
nada
podiam fazer a não ser
deixar que se cumprisse a Lei. E assim foi
feito.
Agora preta velha fala para
a filha que só existe um caminho a ser
trilhado - o do amor. Amor
que vai curar, auxiliar, amparar. Neste
templo tem um toco
esperando uma preta velha que usará um corpo branco para se
manifestar.
Por bom tempo, Das Dores foi
a mestra daquela madame diplomada. Perguntas e mais perguntas que eram
respondidas com a simplicidade e o amor de que são portadores os espíritos
evoluídos e humildes. Hoje, enquanto a sociedade abastada veste os
corpos de ilusão da riqueza, da fama, do falso sucesso, uma antiga dama
dessa casta, dirige-se ao Templo de Umbanda para lá prestar a caridade. Pés
descalsos, sentada no toco, saudável e feliz, leva conforto e luz a quem
as trevas insiste em levar a dor. Aprendeu que a fé às vezes precisa de um
parto difícil para nascer, mas que só ela dá sustentação real a tudo
àquilo que existe em nossa vida.
( Vovó Benta
)
"No
Universo não existem fantasias nem milagres, mas tudo obedece a
um processo de ciência
cósmica com leis invariáveis." Ramatis – Elucidações do
Além
Por que isso
foi acontecer justamente comigo?
Era a pergunta que fazia entre
lágrimas, aquela mãe desesperançada ajoelhada aos pés da médium
incorporada. Os cabelos desalinhados demonstravam o seu pouco caso
com o corpo físico, contrariando a mesma mulher de algum tempo atrás
onde a vaidade era ponto preponderante em sua personalidade. Os
anéis que enchiam seus dedos já não tinham o brilho da jóia cara,
pois perderam o valor que sempre dera e eles. Estava ali, depois de
ter passado por muitos lugares onde em nenhum encontrara a resposta
à sua pergunta.
Ainda, a dor terrível da perda
corroía-lhe o coração. Já fazia mais de dois anos que seu único
filho havia desencarnado com apenas três anos de idade. Trazia com
ela, uma foto do seu principezinho de olhos azuis.
Desde então, sentia como se houvessem
lhe arrancado um braço deixando se esvair por ali parte de sua
energia vital e todo seu prazer pela vida.
A preta velha pacientemente escutava os
lamentos dolorosos daquela mãe, enquanto buscava através de seu
adestrado poder mental, clarividente, realizar em outro nível fora
do plano físico, a transmutação daquelas formas pensamento plasmadas
e vivificadas por aquele espírito
em desequilíbrio.
Pela
magia do amor, convocava os elementais para
que com seus respectivos elementos pudessem efetuar a profilaxia
necessária nas larvas astrais que se acumulavam em seus centros de
força. A movimentação que se realizava a nível astral era intensa e
ignorada pela mulher, que enclausurada em sua dor só queria uma
resposta que viesse alentar o seu coração.
Percebendo que por ligações ancestrais,
aquele ser estava sendo alvo de indução mental negativa, em total
desrespeito ao seu merecimento, denotando processo obsessivo mórbido
que a ligava a um bolsão de espíritos renitentes e materialistas,
habitantes do umbral inferior, a bondosa e sábia preta velha
convocou a presença do Exu de sua serventia que, com sua falange
adentrou àquele lugar retendo-os e encaminhando-os ao aprendizado
necessário num entreposto transitório do Astral, restabelecendo a
justiça até as devidas deliberações pelos maiorais siderais. Ao
mesmo tempo, era prestado socorro a muitos outros espíritos
sofredores alienados e vencidos pela dor, que por sintonia
vibratória – semelhante atrai semelhante – intensificavam, por
repercussão vibratória, o estado de torpor mental da mãe revoltada
com a perda do filhinho .
A catarse que se verificava com aquela
mãe, agora acalmava diante da sensação de aconchego que a bondosa
Preta Velha lhe
passava, e pelas palavras a ela dirigidas:
-Negra velha vai responder à sua
pergunta fazendo outra:
-
você amava aquele filho que partiu?
-
Meu Deus, é claro que o amava. Ele era meu único
filho!
-
Então o meu conselho é que continue o amando.
-
Eu o amo ainda, mas a
sua presença me faz muita falta. Eu deveria ter morrido em
seu lugar.
-
Negra velha pede desculpas à filha, mas vai ter que ser
verdadeira dizendo que mesmo não duvidando deste amor, ele é por
demais egoísta.
Ouvindo isso e sentindo-se insultada a
mulher reclamou:
-Eu egoísta. Amar um filho é ser
egoísta?
-Amar significa libertar. A filha não
está querendo deixar que a alma deste espírito tome seu rumo. Está
sofrendo porque ele se foi, mas querendo ter ido em seu lugar,
esquecendo que nessa situação o sofrimento seria dele, e talvez
muito maior que o seu, pois então ficaria órfão. Além do mais,
filha, o que você fez até agora para preencher essa falta que diz
sentir, além de chorar? Por acaso percebeu que a poucos metros de
sua casa tem um "lar-abrigo" de crianças abandonadas e carentes? Já
pensou em secar estas lágrimas e sorrir para elas? Sofre sem seu
filho, elas sofrem por não terem uma mãe.
A mulher baixou a cabeça envergonhada
por lembrar de quantas vezes pensou que Deus poderia ter levado uma
daquelas crianças órfãs em vez de ter arrebatado o seu querido
menino:
- A vida, minha filha, é um quebra
cabeça muito bem arquitetado onde todas as peças têm um lugar certo.
Ache o seu, pois o filho que há tempo partiu, neste momento está
chegando onde devia.
A Preta Velha nada mais falou, apenas a
abençoou, despedindo-se. Era preciso à atendida interiorizar tudo
que foi dito, e agora, com mais lucidez, pois já havia ganhado ali
naquela humilde tenda umbandista, toda ajuda que permitia seu
merecimento, haveria de compreender melhor o seu sofrimento
ampliando o discernimento frente a constatação que a morte não
existe .
O cambono não compreendeu porque a
Preta Velha agora sorria e lhe oferecia um pirulito, pedindo que a
corrente puxasse um ponto cantado da vibratória de Yori. O que ele
não via era o cenário que agora se armava a nível astral. Espíritos
com muita luz sob a forma de alegres crianças invadiam aquela tenda para levarem junto o
menino que havia morrido, mas não “desencarnado”, eis que a sua
atual mãe carnal o prendia na crosta e junto a si através de seu
desespero irracional. Enfraquecido e frágil, ele agora encontraria
um lar, muitas mães e amigos de eras remotas, de várias encarnações
passadas, que o ajudariam a continuar sua caminhada evolutiva como
espírito imortal.
Na próxima "lua" voltaria uma mulher
com uma criança negra e raquítica pela mão para que a Preta Velha o
curasse de uma bronquite crônica. Entre todas as crianças do
"lar-abrigo", aquela havia conquistado seu coração.
Preta Velha sorriu... A pergunta estava
respondida.
Vovó
Benta
A voz do
silêncio
O atendimento da noite agora encerrava
naquela terreiro de Umbanda. Alguns dos pretos velhos que haviam
trabalhado, desligavam-se de
seus aparelhos, não sem antes equilibrá-los com energias edificantes e
benfazejas.
Um dos médiuns, após, praticamente
“despachar” seu
protetor, apressou-se em ajoelhar-se aos pés da preta velha que ainda permanecia
incorporada, para solicitar aconselhamento.
O
bondoso espírito acolheu amorosamente suas
lamentações como o fez com todos os outros que haviam passado por
ela naquela noite. Ouviu a tudo fumegando seu cachimbo, porém nada
falou. Saravou aquele filho, agradecendo-o pela caridade que havia
prestado e assim se despediu, largando seu
aparelho.
O médium por sua vez,
desajeitadamente se
retirou sem conseguir entender o silêncio da Preta Velha. Um misto de
rejeição e indignação passou
a povoar seus sentimentos.- “Então é assim! Eu fico fazendo caridade por
horas a fio e quando solicito ajuda o que
recebo?”
Enquanto a corrente mediúnica realizava
as preces de encerramento da sessão, ele sentiu uma inexplicável
sonolência que o obrigou a dirigir-se diretamente para casa,
ignorando o programa prévio de sair com os amigos para mais uma
noitada de lazer em bares da cidade.
Mal adormeceu, em corpo astral, através do
desdobramento, percebeu estar ajoelhado sobre folhas verdes e
cheirosas num ambiente simples, cujas paredes eram feitas de bambu,
o teto de folhas de coqueiro e o chão de terra batida. Algumas
tochas iluminavam o local
e havia uma cantiga no ar que ele bem conhecia. Sentindo a
presença de alguém, virou-se e o viu sentado em seu tosco banco com
aquele sorriso matreiro e
cachimbo no canto da boca. Sua roupa, bem como seus cabelos
brancos contrastavam com a pele negra. Os pés descalços e calejados.
No pescoço um rosário cujas contas eram pura luz. Sim, era ele, Pai
Benedito, seu protetor.
-
Saravá zin fio!
-
Saravá meu Pai!
-
Pai Benedito chamou o filho até sua tenda para poder explicar tudo aquilo que
você não conseguiu entender com a orientação da mana lá no terreiro
da terra.
-
Meu Pai, ela nada falou...
-
E suncê se magoou, não foi?
-
-É... não compreendi...
-
Por isso Pai Benedito o trouxe até aqui e vai explicar. Os
filhos da terra ainda não conseguem compreender a mensagem do
silêncio devido as suas mentes aceleradas pelo imediatismo, pela
falta de concentração e pelo vício de “receitas prontas”. A mana que
nada disse ao filho, agiu assim justamente para incentivar a sua
busca das respostas. Queria que o filho, instigado pela falta do
aconselhamento a que vinha se acostumando, pudesse parar e pensar.
Pensar em todos os conselhos que seu protetor, através de seu
aparelho, havia passado para as pessoas que atendera lá no terreiro
há momentos atrás.
O silêncio da preta velha, quis dizer ao filho que o primeiro
e maior beneficiado da
abençoada tarefa mediúnica é o próprio mediador. A sua característica de médium
consciente permite que receba e transmita os nossos pensamentos e os
bons fluídos dos quais se torna canal. Para que o intercâmbio
“médium-espírito” aconteça, pela bondade divina , o corpo
astral do mediador é
previamente preparado antes de reencarnar através da “sensibilização
fluido- mediúnico” de seus centros de forças para que assim se dê a
afinização com seus protetores
Durante toda a vida encarnada, é ainda alertado e amparado
para que possa exercer o mandato dentro do programado. No entanto,
existe um carma envolvendo tudo isso e o fato dos filhos prestarem a
caridade não os isenta dos entrechoques a que estão sujeitos na
matéria, que nada mais são do que ensinamentos necessários do certo
e do errado. Respeitando as escolhas feitas, esses protetores tantas
vezes, mesmo e apesar de todo esforço, perdem seus pupilos para os
descaminhos da vida, e então resta-lhes aguardar que o relógio do
tempo os traga de volta pela mão da dor.
Pai Benedito não se entristece se o
filho por vezes o dispensa ou não entende suas mensagens. Nem mesmo
quando o filho desfaz as energias recebidas após o trabalho de
caridade através da busca de prazeres ilusórios e momentâneos.
Apenas ajoelha diante do congá, que no plano astral fica sempre
iluminado pelas velas da caridade prestada nas poucas horas em que a
corrente de médiuns se reúne na terra, e implora ao Pai Oxalá a sua
compreensão para todos os espíritos que ainda teimam em permanecer
colados às suas mazelas no plano terreno.
Por isso filho, estando aqui em frente
a este espírito que tanto o ama e cuja ligação perde-se no tempo,
peço que desabafe suas dores, que tire as dúvidas que
angustiam seu coração.
Agora o silêncio era todo seu. Apenas
as grossas lágrimas que desciam de sua face falavam de sua pouca fé,
de seu descrédito até então, pela própria mediunidade. De seus
momentos de incertezas quanto a estar servindo realmente de canal
para Pai Benedito, de seus medos em relação ao animismo e da
confusão que fazia dele com a
mistificação. Mas principalmente de sua vontade de largar
tudo pelos prazeres do mundo, afinal era muito jovem ainda para
levar uma vida regrada em função da
mediunidade.
- Pai Benedito compreende a angústia do
filho, mas pede que revise os tantos avisos que recebeu em seus
sonhos, nas palestras instrutivas que ouviu lá no terreiro, nos
livros que chegaram até suas mãos e nas tantas vezes que a Preta
Velha o instruiu, o aconselhou. Onde estão estas informações? Para
quem eram dirigidas nossas palavras nos atendimentos, senão para
você que as ouvia antes
de repassá-las? Nada é proibido aos filhos no estágio da matéria,
mas em tudo deverá existir o equilíbrio.
O silêncio da Preta Velha havia sido
traduzido e agora ele conseguia compreender que fora o melhor, dos
tantos conselhos que ouvira dela. Fechando seus olhos, a ela
agradeceu mentalmente e quando os abriu, além do cheiro de incenso e
da claridade que se instalara naquele ambiente, percebeu que tudo
modificara. A humilde tenda agora era um templo iluminado por
vitrais coloridos que formavam filetes de luz que se entrecruzavam
num quadro de beleza estonteante. No chão, ao centro, em
esplendoroso piso vitrificado havia o desenho de uma mandala, que de
seu centro irradiava luz dourada. Já não estava mais diante
daquele Pai Velho em
humildes trajes, pois ele havia se transfigurado num ser de
características orientais, de olhar
penetrante.
Nada pode pronunciar, sua voz embargou.
Havia que se fazer o silêncio para que só ele traduzisse a
mensagem agora
recebida.
Naquela manhã acordou muito cedo, tendo
plena lembrança de seu “sonho”. No ar, ainda o cheiro do incenso.
Não fosse a exigência da vida
física, ficaria o dia todo calado, saudando o silêncio da Preta
Velha.
“Que nos ouça, quem tem ouvidos de
ouvir”. Saravá aos filhos da Terra!
Vovó Benta
OS LOBOS ESTÃO
SOLTOS
Camboninho, senta aqui nos
pés da preta velha. Vem emprestar seus ouvidos, pois este espírito
que habita o mundo dos mortos, está precisando falar o que vem
sentindo em seu velho e insistente
coração.
- Salve minha boa mãe preta. Aqui estou para
aprender com vossa sabedoria.
- Meu menino...preta velha tem
feito sua gira pelos terreiros dessas terras do Cruzeiro e entre
risos de alegria por ver que a caridade se expande, contrariando as
dificuldades deste mundo materialista, algumas lágrimas de dor tem
caído deste rosto enrugado pelo tempo.
- Posso saber porque chora,
minha mãe?
- Negra velha já deveria
estar acostumada com as agulhadas dos espinhos e com os laçassos do
chicote...e até suporta isso quando a dor vem para o próprio corpo,
mas se ressente e sofre quando isso se dá no coração dos filhos de
fé.
- Camboninho, tenho visto
tanta discórdia tomar conta das fileiras da caridade, apagando as
tochinhas da fé daqueles que não a tem bem fortalecida. A muito
tempo do vosso calendário, desceu dos céus e veio habitar entre vós
um grande Mestre, filho do Altíssimo e por aqui deixou muitas
mensagens e dentre elas, ensinou aquilo que seus discípulos
expandiram através das escrituras sagradas: - "A caridade é
paciente; é doce e benfazeja; a caridade não é invejosa; não é
temerária e precipitada; não se enche de orgulho; não é desdenhosa;
não procura seus próprios interesses; não se melindra e não se
irrita com nada; não suspeita mal, não se regozija com a injustiça,
mas se regozija com a verdade; tudo suporta, tudo crê, tudo espera,
tudo sofre."
E falou também que haveria
um tempo em que se abririam as portas por onde seriam soltos os
lobos e para tanto, as ovelhas deveriam estar atentas para que não
fossem apanhadas de surpresa. E esse tempo chegou, meu
menino.
Os lobos estão famintos e
nem todos os cordeiros fortalecidos suficientemente para poder fugir
do assalto das feras. Por todo o tempo ignoraram que era preciso
mais que se dizer "filho do Pai", e sim que precisavam se fazer
dignos deste Pai, honrando-o e a seus mandamentos. As leis existem
para serem cumpridas e a partir do momento em que uma delas passa a
não ser observada, abre-se preceito para que as outras percam seu
valor.
Preciosa moeda, de valor
incalculável é pois, a caridade. Mas, como toda moeda pode ser
falsificada e assim o é, quando não possui o brilho do
desprendimento e do amor. Ela também deve ser pautada nas leis que
regem a humanidade e há que se ter discernimento para que não se
joguem pérolas aos porcos.
Os famintos lobos, vorazes e
vindos de um mundo sem lei, desrespeitam o livre arbítrio das
ovelhas e no menor indício de desatenção, eles pulam sobre a presa e
devoram seu coração. É dele que se alimentam e a partir de então, as
ovelhas, quais zumbis, perambulam comandadas por falsas leis gerando
falsas idéias. E aquilo que até então se fazia valer dentro do
rebanho, perde o sentido e os valores reais, e o pior de tudo meu
menino: - perder o coração pode ser
contagioso!
Vejo com o coração doído,
meu menino, esses lobos atacarem ferozmente os rebanhos do Mestre.
Ovelhas escolhidas para sustentar esse final de ciclo terreno que
venceram as tentações da matéria e do desregramento sexual, as duas
fatais jogadas das trevas sobre os homens até então, mas que agora
sucumbem por deixarem se confundir nos reais valores da caridade e
da fé.
E como um vendaval, entram
soprando as tochas acesas, tentando escurecer nosso mundo e apagar a
luz. E ai daqueles que sucumbirem! Ai daqueles que testados até
então e ainda vitoriosos, não conservarem neste último e derradeiro
instante, sua luz acesa, mostrando de que lado se encontram. O joio
e o trigo não mais permanecerão na mesma lavoura e a separação se
faz rápida para que os novos tempos cheguem trazendo boa
colheita.
As mentes desavisadas, o
emocional desequilibrado e a vaidade exacerbada faz com que se
lancem no lodaçal, aquelas que seriam boa semente, e lá apodreçam
sem germinar. Atente meu menino, para a voz do seu coração e não
ensurdeça agora. Muitos uivos se ouvirão e confundir-se-ão pelas
ondas do tempo. É preciso, acima de tudo, discernimento e a certeza
de que não é apenas a pele de cordeiro cobrindo o lobo, mas que
dentro deste cordeiro existe a marca do Mestre. E essa marca meu
filho, é demonstrada pela humildade e desprendimento em exercitar a
caridade. Sem falsos falatórios que enchem a boca mas esvaziam o
coração.
Caridade feita pelo arquear
de suas costas, olhando o chão, mas vislumbrando nele o reflexo de
um céu estrelado e que cada estrela seja representada por uma gota
de seu suor nas horas de doação. Prossiga assim meu menino e não
perca ao longo do caminho, essa inocência de seu olhar, que ainda
faz das crianças a esperança da
renovação
-Saravá meu
camboninho!
-Saravá minha mãe, vossa
bênção!
Vovó
Benta

O TERREIRO É O HOSPITAL
A
dificuldade de cumprir a tarefa de dirigente sempre se acentua
dentro do
terreiro, com os médiuns e muito pouco na caridade com
o povo. Todo médium
de tarefa, é um ser encarnado para curar seu
espírito endividado e o
terreiro é o hospital onde vai se
internar por um longo tempo de sua vida
na terra.
Sabemos que
a maioria dos pacientes são impacientes, não é mesmo?
E, aí é que
complica!
O dirigente também não deixa de ser um doente que além
de se tratar, agora
pode estagiar ajudando aos médiuns de sua
corrente "hospitalar".
Isso não o coloca como um semi-deus
perfeito do qual não se admitem mais
erros, muito menos como
alguém que tudo pode, em qualquer hora e em
qualquer
situação.
Dele será exigido posturas mais firmes bem como
entendimento mais apurado.
Ele deverá se aprimorar constantemente
com estudo e reforma íntima,
exigindo da corrente igual
compromisso.
Tais posturas serão necessárias em função do
tamanho de sua
responsabilidade e dentre elas está a de cortar o
mal pela raiz,
priorizando sempre a corrente como um todo, sem
privilégios a quem quer
que seja.
Ao assumir tal posto
diante da espiritualidade, antes de reencarnar, já
estará
consciente de que sua vida não será "comum" e que certamente
terá
que abdicar de muitas coisas materiais, em favor do lado
espiritual.
O termo Pai e Mãe agracia o médium com a postura
de se colocar como tal,
amparando, educando e auxiliando a
corrente como verdadeiros filhos de seu
coração. Tarefa mais
difícil ainda, pois esses "filhos" não vieram de seu
ventre e não
nasceram ontem. São adultos, viciados e com
personalidade
formada.
Cada um com seus egos aflorados,
com suas necessidades de reformulação e o
fato de portarem a
mediunidade, já os qualifica como devedores em
potencial.
4/21/08 JONE
E certamente, reeducar um adulto é muito mais
difícil do que educar uma
criança. É pepino torto.
Observo
nos terreiros por onde ando que muito se exige do dirigente
e
muito pouco se retribui. Falta nos médiuns, desde respeito até
aquilo que
os deveria mover dentro da corrente, que é amor.
Humildade então, meus
filhos, é coisa rara. Em compensação sobra
bajulação, geralmente usada
como meio de se fazer preferido na
corrente.
Nega véia costuma dizer que criança que se cria como
bibelô, como tal vai
quebrar quando adulto.
Todo aquele
que não teve rédea firme na infância para domar suas
más
tendências, vai chegar no terreiro e expô-las de modo a
perturbar a ordem
do lugar. Hora e vez de impor as leis que regem
a Casa, independente do
que possa pensar a respeito disso, o
médium em questão.
Se mesmo indisciplinado, tiver algo de
humildade, vai receber o chamamento
como aprendizado e ali vai
crescer, mas se pelo contrário, além da
indisciplina prevalecer
nele a arrogância e o orgulho, acolherá como
ofensa e
infelizmente, o remédio é amargo para essa doença.
A tarefa é
tão árdua que muitos desistem na metade da caminhada, outros
se
corrompem, mas, ainda bem que uma grande maioria volta à casa
com sua
coroa iluminada pela luz do dever cumprido e a estes, o
mérito de
conseguir dar um salto em sua evolução.
Vovó
Benta
por Leni Winck Saviscki
Templo de Umbanda Vozes de
Aruanda - Erechim - RS

O Olhar de Jesus
Apesar de já acostumado à
rudez que a profissão obrigava, o comandante
de uma das tropas
que compunham o exercito, cuja meta principal era
perseguir os
seguidores daquele homem que se dizia o "Filho do
Altíssimo",
sentia-se cansava daquela
vida. A idade lhe roubava as forças, e, diante de
tantos relatos
dos milagres no meio do povo, já não sabia se aquilo
lhe
instigava mais ódio, motivando-o a continuar com a
perseguição, ou se algo
naquele homem misterioso mexia com sua
alma endurecida.
Seus sonhos eram perturbados constantemente pela
presença daquele homem
quem nem conhecia e de quem só ouvira
falar. Perturbado, acordou naquela
manhã decidido a invadir o
local onde se reuniram, no final do dia, o
homem e seus
seguidores.
Chegando com sua tropa próximo ao local, pôde ver que
muitos aleijados,
mulheres e crianças, além de homens simples,
encaminhavam-se para a beira
do lago. A euforia tomava conta de
seus rostos e nem a presença da tropa
armada os influenciava a
retornar ou parar. O comandante, à medida que se
aproximava, foi
sentindo taquicardia e pensou estar beirando a morte.
Também por
isso avançou mais decidido ainda, pois, se morresse
naquele
instante, pelo menos teria cumprido o ato heróico de
primeiro entregar
aquele homem, que considerava fora-da-lei, aos
seus superiores.
As pessoas pareciam ignorar a presença dos
soldados, e, atentas, ouviam
Jesus falar sobre um reino onde a
justiça existia e o amor imperava.
Abrindo caminho entre a
multidão e a poucos metros de Jesus, o comandante
abriu a boca
para dar voz de prisão, mas nada pronunciou, pois suas
mandíbulas
travaram, e, quando o homem a quem perseguia levantou os olhos
de
encontro aos seus, ele cegou. Aquele olhar se direcionou a ele como
uma
luz tão intensa que seus olhos escureceram e ele tombou do
cavalo, sendo
socorrido por seus soldados.
Não foram só seus
olhos que receberam a luz daquele homem. Em choro
convulsivo, ele
drenava do peito a culpa e ordenava ao seu exército que
se
retirasse dali. A dor que sentia não era em seus olhos, mas em
seu
coração. Aquele olhar o havia cegado para o mundo físico e
aberto sua
visão interior, em que a escuridão invadia, já por
toda uma vida.
Desnorteado, desligou-se do exército e se recolheu
a uma caverna, vivendo
a pão e água. Apesar de sua rigidez, era
muito estimado por vários de seus
soldados, principalmente por um
a quem confiava suas ordens mais secretas.
Este, vendo seu
comandante, até então homem forte, decidido, quase
imbatível,
jogado como um mendigo sem poder enxergar, desesperou-se e,
em
ato solidário, furou seus olhos, cegando-se também.
O
Mestre Jesus não havia cegado com seu olhar amoroso. Lançou a ele
um
olhar de compaixão, acionando suas trevas interiores que, pela
rudeza e
incapacidade de entendimento, traduziu-se como cegueira.
Na verdade,
muitos de nós ainda hoje preferimos fechar os olhos
para a Luz, se esta
nos pedir qualquer transformação interior. É
mais fácil cegar do que
enxergar a verdade, e, por isso,
permanecemos perambulando nas trevas de
nossas ignorâncias,
quando nos bastava abrir as portas do coração.
- Esta é a
história desses dois homens que há pouco estavam
ajoelhados
diante da preta velha, meu cambono. Hoje pai e filho;
outrora o comandante
e seu solidário soldado. A cegueira da época
transformou a perseguição ao
Mestre Jesus na fé inabalável que
hoje têm pela figura do Cristo. Porém,
ainda estão latentes as
culpas que carrega dentro de seu inconsciente por
ter se acordado
diante da inusitada oportunidade que teve de se tornar
um
seguidor de Jesus. Mostrando toda a sua misseira inteiro,
preferiu se
enclausurar e abandonar a vida, levando consigo
aquele moço que furou os
próprios olhos para demonstrar
solidariedade a ele. O gesto do rapaz o
desesperou mais ainda,
pois, diante daquilo, teve a certeza de que até sua
amizade fazia
mal às pessoas.
Por ora, suas ressonâncias negativas foram
acionadas dramaticamente pelos
últimos acontecimentos. O rapaz,
hoje seu filho, apresenta problema sério
de visão, diagnosticado
como trombose do fundo do olho, tendo que se
submeter a uma
cirurgia, sem contar as dores constantes que vem sofrendo.
-
Minha preta, mas se passaram mais de dois mil anos e ainda esses
filhos
trazem as marcas dos erros cometidos naquela época??
-
Tudo fica gravado na tela holográfica universal, para que nada se
perca
aos olhos da Lei. Não importa, quantos séculos se passaram
ou quantas
encarnações já vivenciaram, aquilo que ainda marca o
corpo energético dos
filhos está pedindo resgate. Só o corpo
físico nos possibilita a frenagem
e limpeza do espírito, por
isso, cambono, é preciso ter o máximo respeito
e cuidado com ele.
No universo nada dá saltos, e ainda existe o respeito
absoluto
pelo livre-arbítrio. Quem sabe quantas oportunidades se
fizeram
nesse intervalo de tempo para que tudo já estivesse
resolvido? Ter as
oportunidades é uma coisa, aproveitá-las e
outra. A pressa em evoluir é
individual, pois o tempo de Deus é a
eternidade. Quanto a nós, temos
pressa, mas, a passo lento e
desse jeito, perdemos valiosas oportunidades.
Mas, como diz negro
velho: "é no andar da carroça que as abóboras se
acomodam". Tudo
à seu tempo, cambono. Tudo à seu tempo!
Vovó
Benta – Leni W.Saviscki

A
Miséria Humana e o Valor da
Compaixão
A miséria por falta de dinheiro é a menos
dolorosa.
Maria era uma moça do bem e embora não encaixasse em nenhuma
religião, seguia os preceitos evangélicos de Jesus. De família
humilde, procurava sempre resolver as questões difíceis da vida
através de sua acentuada intuição, recebida após orações, onde
falava com Deus.
No caminho do trabalho, Maria deparou-se com um adolescente
que além de cambaleante, sua aparência denotava visivelmente que ele
estava alterado pela droga. Com roupas sujas e pés descalços,
arrastava uma peça de roupa que trazia nas mãos. Seu coração se
encheu de misericórdia e sentiu vontade de abraçar o menino, se isso
fosse possível. De imediato pensou em como ele deveria estar triste,
alienado, sem rumo...De seus olhos as lágrimas brotaram e nesse
momento, não podendo fazer mais nada, orou. Pediu a Deus que
enviasse algum anjo bom que socorresse aquela criaturinha e que
aliviasse sua dor, pois era visível seu
sofrimento.
Maria fez isso com tanta compaixão que mesmo sem perceber ou
acreditar que fosse possível, acionou energias que através de ondas
se movimentaram como um telégrafo com endereço certo.
A moça seguiu seu caminho, mas enquanto isso falanges de
espíritos trabalhadores da luz, recebendo o pedido de socorro e
aproveitando a energia de amor gerada pela moça, encontraram o
menino. Ao seu redor, uma chusma de espíritos drogados e
aproveitadores, embriagados pela droga que na sua parte etérica era
por eles aproveitada. O ambiente ao seu redor era degradante, mal
cheiroso e enegrecido. Como restos humanos, era a melhor maneira de
identificar aquelas criaturas
sofredoras.
Mesmo os desencarnados não conseguiam perceber a presença dos
socorristas, tal era a densidade energética que os separava.
Aproveitando-se disso, um trabalhador da egrégora dos Exus,
acostumado a lidar com este tipo de espírito nas faixas mais densas
do planeta, usando de uma espécie de spray, adormeceu os
desencarnados e os retirou cuidadosamente, desfazendo a ligação
quase simbiótica com o rapaz, entregando-os aos auxiliares que os
conduziriam a um hospital no plano
astral.
No plano físico, embora totalmente drogado, o menino se
ressentiu com a retirada dos “amigos” de seu campo energético e
cambaleou, caindo ao solo desmaiado. Aproveitando-se da situação
favorável, uma vez que desmaiado o agregado espiritual afrouxa e
desloca-se ligeiramente, alguns dos médicos espirituais ali
presentes, realizaram ligeira limpeza, na tentativa de reanima-lo.
Seus centros de forças foram higienizados e terapeutizados com os
amálgamas que já faziam parte dos primeiros socorros da equipe. Passes magnéticos foram
aplicados ao longo de sua coluna vertebral e em seu centro nervoso,
dinamizando energias ali deixadas pelos minúsculos companheirinhos
elementais da natureza.
Dois guardiões foram ali deixados para proteger
energeticamente de possíveis aproveitadores, até que o menino
acordasse. E assim que retornou a consciência, sentiu-se
relativamente bem, coisa que a muito não sabia mais o que era.
Levantou-se, e sentiu vontade de voltar para casa, pois tinha sede,
fome e queria um banho, intuído que estava pela ajuda
recebida.
Ao deitar-se, naquela noite, sentindo a cama macia e limpa,
Maria não pode deixar de lembrar do menino que tanto a emocionara
durante o dia. Rezou por ele, desejando que alguém o ajudasse a sair
daquela vida. E assim, repetidas noites o fez, deixando que o amor
exalasse e o alcançasse nessa hora.
Como nada fica sem resposta no cosmo, as orações de Maria
alcançavam seu objetivo e em poucos dias o menino após ter sido
atropelado na rua, foi acolhido numa Instituição Evangélica de
Recuperação de Drogados e Alcoólatras. E lá a oração de Maria
chegava todos os dias em forma de alento e força, dando material
para que a espiritualidade que ali atuava, auxiliá-lo de maneira
mais ostensiva. Era matéria de primeira linha, pois se tratava do
mais sublime dos sentimentos – o amor desinteressado e
incondicional.
Aos poucos ele foi se recuperando e após longo tempo de
internato, optou por trabalhar no próprio local, ganhando seu
sustento e auxiliando os outros companheiros.
Nunca soube quem o ajudara realmente e mesmo na sua
dificuldade de raciocínio, resultado deixado pelas drogas, ele não
esquecia de agradecer a Deus por ter sido atropelado um
dia.
Se existem misérias que degradam o ser humano, existem
também corações cuja energia Crística enriquecem de bênçãos o
planeta.
Filho meu, nunca
deixe de orar pelos que sofrem, pois ignoras o tanto de bem que
estarás fazendo. Nunca julgue a aparência pelo merecimento. Nunca se
esquive de ajudar, pois o Universo inteiro se movimenta quando
empreendes tua vontade. Você pode, mesmo em pensamento e sem esforço
algum.
Vovó Benta
Maio/2009

Curadores de
Dores
Sexta feira Santa. A corrente mediúnica se reúne para falar
sobre Jesus e sobre seu Renascimento através da passagem (Páscoa).
Um palestrante irradiado por seu guia espiritual explanou sobre a
vida do Mestre e sobre sua trajetória terrena de forma iluminada.
Depois um pequeno ritual com os elementos e a distribuição de grãos
de uvas imantadas, simbolizando a comunhão entre os irmãos ali
presentes. Uma atmosfera de brandura e paz se fez no ambiente,
podendo-se sentir a presença dos espíritos luzeiros assistindo o
evento, bem como o amparo àqueles que do outro lado, ali estavam
buscando conforto para suas almas. Já era hora de encerrar, quando a
médium sentiu as vibrações fortes de sua protetora e sua necessidade
de se fazer presente no local, através daquela mediunidade. Era a
preta velha, Vovó Benta que nos trazia a bênção de sua presença
sempre tão bem vinda:
-Salve os filhos deste
terreiro!
Negra Velha é muito “inxirida” e não podia deixar passar essa
oportunidade sem lhes dar uma mensagem. Até porque, o faço a pedido
do Sr.Xangô que é o regente oficial desta casinha de caridade.
Primeiramente, em nome dos espíritos que trabalham junto a vós,
agradeço pelo momento de luz que criaram, propiciando auxílio a
tantos quantos nem imagineis.
E, com a permissão do Sr.Xangô, essa negra precisa lhes
contar uma pequena história sobre a falta de humildade que já
carregou na vida.
-Nos idos tempos da escravidão, este espírito ocupava um
corpo físico de formas perfeitas e o exibia não só entre os negros
da senzala que disputavam até um olhar seu, como também provocava o
sinhozinho e seus capatazes brancos. A sensualidade era sua marca e
isso transparecia desde o andar até a maneira de falar e olhar. A
juventude e a beleza de sua pele negra arrecadavam para si, ciúmes e
inveja das outras mulheres.
Um
dia, um negrinho foi mordido por cobra venenosa e por falta de
remédios e cuidados de higiene, seu pé apodrecia de infecção. Eu era
a única poupada de trabalhar na lavoura e sendo assim, me
encarregaram de efetuar a higiene do pé do menino e passar o remédio
que as negras haviam feito. Aquilo me anojava muito e me neguei ao trabalho. Em
pouco tempo o menino morreu e então começou meu inferno. Em sonhos,
eu o via chorando e se lamentando de dor e toda a alegria que eu
possuía foi se indo embora. Um dia, enquanto colhia frutas para
sinhazinha, pisei num espinho venenoso e meu pé infeccionou. Remédio
nenhum conseguia amenizar a dor e o inchaço. Meu remorso aumentava,
pois agora mais ainda, eu sabia o que era padecer sem
consolo.
Numa
noite, no delírio da febre alta, senti a presença do menino morto.
Ele trazia um pote de água, um pano muito alvo em suas mãos e largo
sorriso no rosto. Olhei para seus pés e eu não os enxergava, pois o
negrinho flutuava numa névoa translúcida. Chegou-se até meu leito e
começou a lavar meu pé, o que proporcionou alívio imediato. Enquanto
fazia isso, cantarolava um lamento negro que costumávamos ouvir na
senzala quando ainda éramos crianças, cantado pelos negros mais
idosos. Ao terminar, o negrinho ajoelhou-se e beijou minha ferida
purulenta, deixando ali sua saliva curativa e me disse: -“Bentinha,
amanhã suncê vai tá boa. Mas neguinho vai fazê pedidô: num esquece
de rezá pras almas dos nego desamparado e cumeça a
benze”.
Me
curei da ferida do pé e atendi o pedido daquele espírito. Comecei a
benzer , embora isso não aliviasse minha culpa por o ter deixado morrer.
Carreguei-a além túmulo. Porém, mesmo ajudando aquele povo, a
vaidade que a beleza me dava, obscurecia minha visão e fechava meus
ouvidos. Não havia ainda curado a pior ferida da minha alma: - o
orgulho.
Quando
cheguei no mundo dos mortos, me mostraram uma cena: -Nosso Senhor
Jesus Cristo lavando os pés dos discípulos na véspera de sua paixão
e morte.
Por
isso meus filhos, longe de me comparar à figura transcendente de
N.Senhor, eu quero neste dia, pedir licença a todos para lavar
vossos pés em frente a este congá. E lavando vossos pés, quero lavar
as feridas que ainda carregais na alma, para aliviar a dor desta
minha ferida.
E assim,
provocando lágrimas de emoção, Vovó Benta solicitou um alguidar com
água, colocou nele folhas de manjericão e lavou, secou e beijou os
pés de cada médium da corrente.
Como médium consciente, consegui captar do espírito toda a
necessidade que ela ainda trazia, - embora já tendo evoluído e
estando trabalhando nesta egrégora de luz que é a linha dos Pretos
Velhos - de curar sua
alma ferida numa encarnação onde não se permitiu salvar uma vida.
Vida essa que veio salvar a sua, demonstrando uma lição ímpar de
humildade e amor incondicional.
E me fez repensar naqueles mendigos mal cheirosos que
encontramos nas ruas das cidades e que nos causam repulsa. Em
quantos deles não estarão espíritos que, ou já nos socorreram ou
servirão de socorro num futuro que pode ser
amanhã?
O orgulho e a empáfia nos tornam cruéis diante da vida e dos
seres. Aqui, escolhemos a dedo quem merece nosso olhar, nosso
sorriso, nossa atenção, nosso respeito. De certo, da mesma forma,
seremos tratados acolá.
Curadores de dores... é o
que deveríamos ser. Porém, muito mais somos nós, julgadores e
criadores de marcas, que serão dores a drenarmos num próximo corpo,
se assim tivermos a sorte de tê-lo no futuro.
Paz a todos!
Leni W.S.Abril/2009
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